As marcas de Bia Haddad Maia em Wimbledon

Credito: AELTC/Dave Shopland

Beatriz Haddad Maia não teve referências no tênis feminino brasileiro quando juvenil. Quando pequena, sua tenista favorita no feminino era a belga Justine Henin, na adolescência passou a apontar para Petra Kvitova como o seu modelo favorito de jogo. Falta de jogadoras no top 100, em chaves principais de Grand Slam, com títulos WTA e vitórias em torneios grandes.

Desde quando a paulista de 21 anos nasceu, apenas Teliana Pereira havia disputado a chave principal de Grand Slams e isso aconteceu já no momento em que Bia estava competindo no tênis profissional. Em Wimbledon, o hiato de participações brasileiras foi de 1991 a 2013, um total de 23 edições consecutivas sem nenhuma jogadora do país.

Assim como Teliana foi desbravadora nos últimos três anos, agora chegou o momento de Bia ser a referência para as jovens tenistas. Ela obteve nesta segunda-feira a sua primeira vitória em chave principal de Grand Slam em sua segunda partida disputada neste nível. Em Roland Garros, passou o quali e perdeu para a russa Elena Vesnina, mas em Wimbledon, derrotou a britânica Laura Robson com 6/4 6/2 para se tornar apenas a oitava brasileira a vencer no Slam da grama em simples.

Antes de Bia, nem mesmo Teliana havia conseguido vencer jogos em Londres. A última havia sido a paranaense Gisele Miró, em 1988. As outras seis tenistas brasileiras que venceram partidas em Wimbledon foram Niege Dias, em 1986, Claudia Monteiro, em 1984, Patricia Medrado, em 1982, Suzana Petersen, em 1969, Ingrid Metzner, primeira brasileira a jogar o torneio, em 1956, e Maria Esther Bueno, a única que venceu mais de um jogo na grama inglesa, com um total de 51 vitórias e três títulos conquistados.

A primeira vitória de Bia em Wimbledon encerra um jejum de 28 anos para o Brasil, vai colocá-la em seu melhor ranking da carreira após o torneio inglês, hoje ela estaria próxima de 80ª. E esta também foi o 58º triunfo de uma brasileira no Grand Slam britânico em 92 jogos disputados por tenistas do Brasil, número que é turbinado com as campanhas históricas de Maria Esther Bueno, tricampeã em 1959, 1960 e 1964, além do vice em 1965 e 1966.

A história mostra que poucas brasileiras tiveram o privilégio de jogar a chave principal em Wimbledon, sendo que Bia é apenas a 12ª em mais de 100 anos de torneio. Entre as que não venceram jogos na chave, Maria Helena Amorim, Glaucia Langela, Andrea Vieira e Teliana Pereira se juntam às oito citadas anteriormente.

Há torcedores que lamentaram o fato de a brasileira enfrentar a cabeça de chave 2 do torneio, a romena Simona Halep, já na segunda rodada. Mas pelo histórico de campanhas das brasileiras, Bia já fez grande coisa ao vencer a estreia e tem muita coisa a seu favor. É jovem, ainda desconhecida de algumas das principais jogadoras do circuito, enfrenta uma adversária que tem um jogo que não lhe é tão incômodo, entra sem pressão nenhuma enquanto Halep está em busca do primeiro título de Grand Slam e no número 1 do mundo. E caso consiga uma vitória, o que não seria absurdo pelas condições encontradas, seria a primeira brasileira desde Maria Esther Bueno a vencer mais de um jogo no torneio mais tradicional do tênis.

Tal qual fez Teliana ao encerrar o jejum de brasileiras em chaves principais de Grand Slam, em títulos de WTA e no top 100 do ranking feminino, agora é Bia quem assume o papel principal do tênis feminino brasileiro em um momento no qual as outras jogadoras do país não vivem uma fase promissora. Enquanto Bia vai subindo em seu nível de jogo e nas posições do ranking, Teliana e Paula Gonçalves estão fora do top 300.

E hoje também há poucas jogadoras de menos de 23 anos com bons resultados. Laura Pigossi, de 22 anos, é a 408ª do mundo, Carolina Alves, de 21, é a 456ª, Luisa Stefani é 728ª, Thaisa Pedretti ocupa o número 734, Ingrid Gamarra Martins é 792ª, Karolayne Rosa é 956ª e Rafaela Sanros é 1096ª. Elas são as poucas novatas em um ranking que tem apenas 15 jogadoras brasileiras atualmente. No ranking mundial juvenil, Pedretti é a única entre as 100 melhores.

Bia é um dos raros casos no feminino de tenista que cresceu acompanhada pela Confederação Brasileira de Tênis. Ela recebe apoio com passagens aéreas desde que ingressou na academia de Larri Passos e fez parte do pouco duradouro Projeto Olímpico, em 2011. Um caso de sucesso, mesmo depois de problemas que atrapalharam sua carreira neste período.

O papel tem sido bem feito dentro de quadra por Bia e fora de quadra por sua equipe já há alguns anos. Agora é hora de aproveitar o sucesso dela não apenas para comemorar e se vangloriar do que deu certo, mas que se trabalhe por uma sequência, com meninas de 12, 14, 16 e 18 aproveitando a referência, para que não fiquem tantos tabus a serem quebrados nos próximos 20 ou 30 anos.

Abaixo, a lista de jogos de brasileiras na chave principal de Wimbledon:


1956 – Ingrid Metzner

R128: Ingrid Metzner (BRA) d. Elsa Schmith (DEN) – 6/3 6/4

R64: Pat Hird (GBR) d. Ingrid Metzner (BRA) – 3/6 6/0 7/5


1957 – Maria Helena Amorim

R64: Berna Thung (NED) d. Maria Helena Amorim (BRA) – 6/3 4/6 6/1


1958 – Maria Esther Bueno

R128: Maria Esther Bueno (BRA) [4] d. Hazel Cheadle (GBR) – 6/1 6/2

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [4] d. Renee Schuurman (RSA) – 6/0 6/2

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [4] d. Joan Curry (GBR) – 6/0 6/2

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [4] d. Thelma Long (AUS) – 6/2 6/3

QF: Ann Haydon (GBR) d. Maria Esther Bueno (BRA) [4] – 6/3 7/5


1959 – Maria Esther Bueno

R128: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Pauline Edwards (GBR) – 6/1 6/3

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Margot Dittmeyer (GER) – 4/6 6/1 6/1

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Mimi Arnold (USA) – 5/7 6/3 6/1

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Ruia Morrison (NZL) – 6/1 7/5

QF: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Edda Buding (GER) – 6/3 6/3

SF: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Sally Moore (USA) [7] – 6/2 6/4

F: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Darlene Hard (USA) [4] – 6/4 6/3


1960 – Maria Esther Bueno

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Christianne Mercelis (BEL) – 6/3 6/2

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Tone Schirmer (NOR) – 6/2 6/1

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Margaret Hellyer (AUS) – 6/0 6/0

QF: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Angela Mortimer (GBR) [5] – 6/1 6/1

SF: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Christine Truman (GBR) [3] – 6/0 5/7 6/1

F: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Sandra Reynolds (RSA) [8] – 8/6 6/0


1962 – Maria Esther Bueno

R128: Maria Esther Bueno (BRA) [3] d. Margaret Vamer (USA) – 6/3 6/4

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [3] d. Edda Buding (GER) – 6/4 4/6 6/3

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [3] d. Anna Dmitrieva (URS) – 3/6 6/1 6/1

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [3] d. Deidre Catt (GBR) – 6/2 6/4

QF: Maria Esther Bueno (BRA) [3] d. Lesley Turner (AUS) [7] – 2/6 6/4 6/2

SF: Vera Sukova (TCH) d. Maria Esther Bueno (BRA) [3] – 6/4 6/3


1963 – Maria Esther Bueno

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [7] d. Parveen Ahmed (PAK) – 6/0 6/0

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [7] d. Annette van Zyl (RSA) – 6/2 6/0

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [7] d. Liz Sterkie (GBR) – 6/1 7/5

QF: Billie Jean King (USA) d. Maria Esther Bueno (BRA) [7] – 6/2 7/5


1964 – Maria Esther Bueno

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Carol Prosen (USA) – 6/0 6/3

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Christianne Mercelis (BEL) – 6/1 6/1

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Trudy Groenman (NED) – 6/1 6/1

QF: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Robyn Rbbern (AUS) [8] – 6/4 6/1

SF: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Lesley Turner (AUS) [4] – 3/6 6/4 6/4

F: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Margaret Court (AUS) [1] – 6/4 7/9 6/3


1965 – Maria Esther Bueno

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Winnie Shaw (GBR) – 6/3 6/2

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Madonna Schacht (AUS) – 6/4 7/5

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Ann Jones (GBR) – 6/4 7/5

QF: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Julie Albert (USA) – 6/2 6/2

SF: Maria Esther Bueno (BRA) [1] d. Billie Jean King (USA) [5] – 6/4 5/7 6/3

F: Margaret Court (AUS) [2] d. Maria Esther Bueno (BRA) [1] – 6/4 7/5


1966 – Maria Esther Bueno

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Stephanie de Fina (USA) – 6/1 6/2

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Tory Fretz (USA) – 6/2 6/0

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Judy Tegart (AUS) – 6/3 4/6 6/2

QF: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Françoise Durr (FRA) [7] – 6/4 6/3

SF: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Ann Jones (GBR) [3] – 6/3 9/11 7/5

F: Billie Jean King (USA) [4] d. Maria Esther Bueno (BRA) [2] – 6/3 3/6 6/1


1967 – Maria Esther Bueno

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Laura Rossouw (RSA) – 6/3 6/1

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [2] d. Lynn Abbes (USA) – 6/4 6/0

R16: Rosie Casals (USA) d. Maria Esther Bueno (BRA) [2] – 2/6 6/2 6/3


1968 – Maria Esther Bueno

R128: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Lea Pericoli (ITA) – WO

R64: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Carol Sherriff (AUS) – 6/4 6/1

R32: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Julie Heldman (USA) – 6/4 6/1

R16: Maria Esther Bueno (BRA) [6] d. Rosie Casals (USA) – 5/7 6/4 6/3

QF: Nancy Richey (USA) [3] d. Maria Esther Bueno (BRA) [6] – 6/4 6/2


1969 – Suzana Petersen

R128: Suzana Petersen (BRA) d. Eva Lundquist (SWE) – 6/4 7/9 6/2

R64: Helen Amos (AUS) d. Suzana Petersen (BRA) – 6/4 3/6 6/4


1970 – Suzana Petersen

R128: Alena Palmeova (TCH) d. Suzana Petersen (BRA) – 6/2 6/3


1976 – Maria Esther Bueno

R128: Maria Esther Bueno (BRA) d. Robin Tenney (USA) – 6/4 6/4

R64: Maria Esther Bueno (BRA) d. Bunny Bruning (USA) – 6/4 3/6 8/6

R32: Maria Esther Bueno (BRA) d. Mona Guerrant (USA) – 6/4 3/6 6/3

R16: Sue Barker (GBR) [7] d. Maria Esther Bueno (BRA) – 2/6 6/2 6/1


1977 – Maria Esther Bueno

R64: Maria Esther Bueno (BRA) d. Janet Newberry (USA) – 1/6 8/6 8/6

R32: Billie Jean King (USA) [5] d. Maria Esther Bueno (BRA) – 6/2 7/5


1979 – Patricia Medrado

R128: Pam Shriver (USA) [16] d. Patricia Medrado (BRA) – 6/4 6/3


1981 – Glaucia Langela

R64: Sue Leo (AUS) d. Glaucia Langela (BRA) – 6/1 4/6 6/2


1982 – Claudia Monteiro e Patricia Medrado

R128: Sue Leo (AUS) d. Claudia Monteiro (BRA) – 6/3 2/6 6/3

R64: Patricia Medrado (BRA) d. Eva Pfaff (GER) – 6/3 7/6

R32: Wendy Turnbull (AUS) [6] d. Patricia Medrado (BRA) – 6/2 6/4


1983 – Claudia Monteiro e Patricia Medrado

R128: Elise Burgin (USA) d. Claudia Monteiro (BRA) – 6/2 6/4

R128: Barbara Potter (USA) [11] d. Patricia Medrado (BRA) – 7/5 6/1


1984 – Claudia Monteiro e Patricia Medrado

R128: Claudia Monteiro (BRA) d. Anna-Maria Fernandez (USA) – 4/6 6/2 9/7

R64: Andrea Temesvari (HUN) [15] d. Claudia Monteiro (BRA) – 6/4 6/1

R128: Michelle Torres (USA) d. Patricia Medrado (BRA) – 6/2 6/7 10/8


1985 – Niege Dias e Patricia Medrado

R128: Elise Burgin (USA) d. Patricia Medrado (BRA) – 7/6 6/2

R128: Diane Balestrat (AUS) d. Niege Dias (BRA) – 6/0 6/2


1986 – Niege Dias e Patricia Medrado

R128: Catherine Suire (FRA) d. Patricia Medrado (BRA) – 6/4 3/6 6/4

R128: Niege Dias (BRA) d. Annabel Croft (GBR) – 1/6 6/2 6/4

R64: Marie Christine Calleja (FRA) d. Niege Dias (BRA) – 6/2 6/4


1987 – Gisele Miró e Niege Dias

R128: Elizabeth Smylie (AUS) d. Niege Dias (BRA) – 6/2 6/3

R64: Isabelle Demongeot (FRA) d. Gisele Miró (BRA) – 6/3 6/1


1988 – Gisele Miró e Patricia Medrado

R128: Catherine Tanvier (FRA) d. Patricia Medrado (BRA) – 6/3 6/1

R128: Akiko Kijimuta (JPN) d. Gisele Miró (BRA) – 4/6 6/0 6/2


1989 – Gisele Miró

R128: Gisele Miró (BRA) d. Elna Reinach (RSA) – 6/1 6/3

R64: Anne Hobbs (GBR) d. Gisele Miró (BRA) – 5/7 6/2 6/4


1990 – Andrea Vieira

R128: Andrea Leand (USA) d. Andrea Vieira (BRA) – 6/3 7/5


2014 – Teliana Pereira

R128: Simona Halep (ROU) [3] d. Teliana Pereira (BRA) – 6/2 6/2


2015 – Teliana Pereira

R128: Camila Giorgi (ITA) [31] d. Teliana Pereira (BRA) – 7/6(4) 6/3


2016 – Teliana Pereira

R128: Varvara Lepchenko (USA) d. Teliana Pereira (BRA) – 5/7 7/6(3) 6/2


2017 – Beatriz Haddad Maia

R128: Beatriz Haddad Maia (BRA) d. Laura Robson (GBR) – 6/4 6/2

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Roland Garros e a realidade do tênis feminino na América do Sul

Veronica Cepede Royg

Desde o início da Era Aberta do tênis, Roland Garros sempre teve jogadoras sul-americanas na chave feminina de simples, é o Grand Slam do saibro, o piso onde são formados os tenistas sul-americanos em geral e da maior parte dos torneios juvenis e profissionais realizados no continente. Mas desde o início da década atual, o número de tenistas caiu significativamente e em 2017 tivemos apenas três representantes da América do Sul na chave principal em Paris.

Bia jogou a chave principal em Paris
Crédito: Corinne Dubreuil/FFT

Beatriz Haddad Maia precisou passar pelo qualifying para chegar à chave e jogar pela primeira vez um Grand Slam como profissional. Além dela, a colombiana Mariana Duque Marino e a paraguaia Veronica Cepede Royg conseguiram a entrada no torneio.

Cepede Royg e Duque Marino foram longe para a expectativa em relação às sul-americanas no torneio e duelam por uma vaga na quarta rodada, que terá uma jogadora do continente pela primeira vez desde 2011, quando a argentina Gisela Dulko chegou às oitavas.

Além das três tenistas já citadas, estiveram em Paris a argentina Nadia Podoroska e a paraguaia Montserrat Gonzalez, que perderam no quali.

Em 1968, eram 10 tenistas da América do Sul jogando em Roland Garros, número que variou bastante nos anos seguintes, mas nunca havia ficado oito edições seguidas com menos de quatro jogadoras na chave principal, o que mostra a realidade do tênis feminino no continente.

Na Fed Cup deste ano não teve nenhum país da América do Sul nem mesmo nos Playoffs do Grupo Mundial II, nem no Grupo Mundial I ou II. Desde 2009, época da Argentina de Dulko, a elite da competição feminina por equipes não tem um país sul-americano.

No ranking da WTA anterior a Roland Garros, a única sul-americana presente no top 100 é a paraguaia Cepede Royg, com Bia Haddad bem perto das cem melhores, o que deve voltar a acontecer depois do Grand Slam. Mas além das duas citadas, e de Duque Marino, que está próxima do top 100, há um abismo.

Andrea Gamiz, uma das poucas venezuelanas
Crédito: Cristiano Andujar

Peru e Uruguai, que já tiveram jogadoras na chave de Roland Garros, hoje não têm tenistas ranqueadas na WTA. A Bolívia tem somente Noelia Zeballos, que ocupa a 799ª colocação. Equador e Venezuela têm duas tenistas cada no ranking, sendo que a melhor venezuelana, Andrea Gamiz, é 354ª, e a melhor equatoriana, Charlotte Roemer, é apenas 819ª. O Chile soma seis jogadoras, apenas Daniela Seguel entre as 300 melhores, na 234ª posição.

Embora tenha hoje uma tenista entre as 100 e outra entre as 200, caso de Montserrat Gonzalez, o que já é superior ao momento do Brasil, o Paraguai tem apenas mais duas ranqueadas. A Colômbia tem apenas Duque Marino entre as 500, depois tem mais seis jovens tenistas no ranking, longe de posições de destaque.

Se a América do Sul sempre teve uma jogadora na chave principal de Roland Garros, a Argentina é o país responsável por isso na maioria das edições. O problema é que já chegamos ao terceiro ano sem uma argentina na chave em Roland Garros. Atualmente há 15 jogadoras da Argentina no ranking da WTA, com apenas Nadia Podoroska entre as 300 melhores. O que se pode esperar de melhora para o país vizinho é a idade das jogadoras que somam pontos no circuito profissional.

Paula Ormaechea foi a última argentina na chave de Roland Garros, em 2014
Crédito: Cristiano Andujar

Por fim, como vai o Brasil? Hoje Bia Haddad Maia começa a se firmar aos 20 anos e recuperada das lesões que adiaram sua chegada ao circuito de elite. Teliana Pereira teve seu grande momento recentemente ao recolocar o país no top 100, de Grand Slam e títulos de WTA, mas não está em um bom momento na carreira em 2017, assim como Paula Gonçalves, Gabriela Cé e Laura Pigossi, que tiveram bons resultados em anos recentes nos torneios WTA, mas não mantiveram.

O problema é que a média de idade das brasileiras no ranking não é baixa, o país teve uma geração que conseguiu feitos importantes (com as jogadoras citadas acima), mas tal qual toda a América do Sul, não teve auto-crítica, não fez trabalho diferenciado visando o desenvolvimento do tênis feminino.

Teliana Pereira campeã em Florianópolis 2015
Crédito: Cristiano Andujar

O Brasil teve dois torneios WTA, que ajudaram enquanto existiam e agora exibem o abismo. Teliana ganhou um deles? Ganhou. Mas o momento da Teliana já era bom mesmo antes dos torneios no Brasil, ela já vinha em uma crescente jogando fora do país. Óbvio que em casa ajuda, ela ganhou em Floripa quando jogou no saibro e foi bem na primeira edição do Rio. Mas Bia, que jogou em boas condições físicas apenas dois dos torneios realizados, acaba de chegar ao seu auge sem haver nenhum deles para jogar.

Paula Gonçalves teve problemas ao arriscar no calendário de 2017
Crédito: Cristiano Andujar

O Brasil teve dois torneios WTA, mas o calendário profissional feminino não teve uma progressão com torneios acima dos ITF 10k e 25k. Não teve torneios de 50k, 75k ou 100k. São caros? Sim, mas um WTA também é. E falar em torneios caros pensando o quanto se usou de Lei de Incentivo ao Esporte nos últimos anos para Challengers, Futures com áreas VIP injustificáveis e torneios de veteranos soa um pouco como fugir da realidade.

As jogadoras tinham de pular de um Future para um WTA. Se quisessem evoluir, que viajassem. Óbvio que é importante viajar para evoluir, mas a resposta no tênis masculino geralmente não vai pelo mesmo caminho. Os Challengers existiram em todos os níveis até o ano passado. O apoio a jogadoras nunca passou de quatro ou cinco no feminino, bem diferente do masculino. A política feita aqui para o feminino só ajudou a reduzir o número de jogadoras.

Quando você tem um grande evento (seja ele um ídolo que estoura ou um torneio grande que vem ao país), você espera que o número de jogadores cresça. Só que o tênis feminino brasileiro tinha mais de 30 ranqueadas entre 2011 e 2013, hoje são 16, um ano apenas depois do fim do WTA de Florianópolis e do torneio feminino no Rio Open. Que evolução é esta?

Estreante na Fed Cup 2017, Luisa Stefani joga o circuito universitário nos EUA
Crédito: ITF

Na Fed Cup deste ano, ficou claro o problema com a falta de Paula Gonçalves e Bia Haddad Maia, quando o país jogou para não ser rebaixado ao Zonal Americano II. As duas mais experientes, Teliana e Gabriela não vinham em boa fase, Luisa Stefani e Carolina Alves vinham a primeira do circuito universitário americano e a segunda de torneios future. E o país teria poucas opções se nenhuma das quatro pudesse jogar no México. Em 2014 foi o único ano na década que o Brasil se classificou para os Playoffs do Grupo Mundial. E a capitã Carla Tiene foi dispensada do cargo no ano seguinte depois de ter ficado com o vice-campeonato do Zonal em 2015.

É só o Brasil? Claro, que não! Por isso você leu lá no começo um comparativo de toda a América do Sul, pois o problema está em todo o continente. Você já deve ter ouvido e lido bastante que o tênis feminino está na Europa. Mas a realidade é que isso acontece pelo fato de o tênis sul-americano não evoluir. Alguma coisa está errado por nossos lados, seja na escolinha, no acompanhamento no juvenil, na formação de técnicos voltados ao tênis feminino e na formação de calendários e organização de torneios.

Você também já deve ter ouvido que o problema é cultural numa forma de transferirem o problema às jogadoras, que são as últimas a serem culpadas, pois o problema está sim na cultura, mas na cultura de organização, na cultura em que a auto-crítica é proibida e “estamos sempre em um grande momento”, mesmo que a história e o trabalho em outros continentes mostrem que estamos errados.