Tênis aprova proposta de Piqué e muda a Copa Davis após 118 anos

ITF aprovou reforma apresentada pelo jogador de futebol Gerard Piqué e a Copa Davis terá sua maior mudança

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Copa Davis a céu aberto, no saibro, com torcida da casa e jogos em melhor de 5 sets acaba em 2018
Crédito: Cristiano Andujar

A Assembleia Geral da Federação Internacional de Tênis (ITF) aprovou nesta quinta-feira, em Orlando, nos Estados Unidos, uma reforma histórica na Copa Davis, um dos eventos mais tradicionais do esporte mundial, que muda completamente o seu formato após 118 anos com uma proposta prometendo $ 3 bilhões em 25 anos para investimentos na base do esporte.

Campeão em 2017, Pouille prometeu boicote. Crédito: Corinne Dubreil

Com o nome “Copa do Mundo do Tênis” adotado nos últimos anos pela entidade internacional, a competição agora terá um formato de Mundial. Em um modelo apresentado por Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona e marido da cantora pop Shakira, e contestado por ex-tenistas como Lleyton Hewitt e jogadores em atividade como o francês Lucas Pouille (que prometeu boicotar a competição), o americano David Haggerty consegue sua maior vitória à frente da ITF depois e viajar pelo mundo em campanha prometendo ajuda aos países votantes.

Ao todo foram 71,4% os votos de aprovação, incluíndo países como Azerbaijão, Botsuana, Gana, Santa Lucia e Togo, entre outros que nem participaram da Copa Davis nos últimos anos. Outro caso controverso foi a participação do francês Bernard Giudicelli no processo enquanto o mesmo responde criminalmente por difamação.

Presente do Grupo Mundial apenas duas vezes nos últimos 15 anos, o Brasil votou favorável à reforma em bloco com os demais países sul-americanos.

O novo formato será o seguinte:

Os 4 semifinalistas de 2018 (🇫🇷 🇪🇸 🇭🇷 🇺🇸) já estão garantidos no Grupo Mundial que acontece entre 18 e 24 de novembro de 2019 em sede a ser definida entre Lille (França) e Madri (Espanha).

Os próximos 24 melhores colocados no ranking da Copa Davis jogarão uma repescagem em fevereiro na qual os 12 vencedores se juntam aos já classificados. Além disso, haverá 2 wild cards (convites) para formar os 18 que competem pelo título.

Os 18 países serão divididos em 6 grupos com 3 equipes cada. Os confrontos da fase de grupos acontecem entre segunda e quinta-feira, com quatro confrontos por dia (2 jogos de simples e 1 de duplas, todos em melhor de três sets).

O vencedor de cada grupo e os dois melhores segundos colocados (definidos por + confrontos, + sets e + games vencidos – nesta ordem) avançam para as quartas de final, seguidas da semifinal e a final. Tudo no mesmo local, com apenas três jogos e em melhor de três sets.

Na sexta-feira acontecem os quatro confrontos de quartas de final, com as semifinais no sábado e a final no domingo.

Os dois piores times serão rebaixados para o Zonal I de 2020, enquanto os outros 12 times jogarão o Playoff com os vencedores dos zonais (6 Europa/África, 3 Ásia/Oceania e 3 Américas) de 2019 em fevereiro de 2020.

A nova Copa Davis não se difere muito dos Mundiais juvenis de 14 e 16 anos que são realizados pela mesma ITF, exceto pelos dois convites políticos que deixam a competição com 18 times em vez dos 16 das categorias de base.

E quem perder aquele confronto de fevereiro? Esses vão para os zonais, que seguirão sendo disputados no mesmo formato de hoje, ao longo do ano, com os vencedores se classificando para este grande Playoff de fevereiro.

O que não foi explicado

Suíça com Federer e Wawrinka foi campeã em 2014. Crédito: Paul Zimmer

Entre os países que votaram contra uma das principais críticas foi a falta de respostas para algumas questões, além do período de disputa da nova Copa Davis, que será logo após o ATP Finals, competição que já costuma perder jogadores em um extenuante final de temporada.

A grande justificativa da ITF para mudar a competição é a ausência dos principais tenistas, o que nada garante que mudará com o novo formato, exceto pelo forte aporte financeiro trazido pelo grupo Kosmos.

O período também inviabiliza que se jogue em pisos diversos e em quadras descobertas, uma vez que Europa e Estados Unidos são os principais candidatos a receber a competição. E qualquer chuva quebraria toda a programação com tantos jogos previstos diariamente.

E os playoffs que acontecem em setembro com ingressos sendo vendidos? Os vencedores serão apenas cabeças de chave e precisarão vencer seus confrontos em fevereiro para participar da Copa Davis em novembro, podendo até repetir um confronto de setembro já que os demais classificados serão definidos por ranking.

Outro ponto crítico da Copa Davis nos últimos anos, que é a questão do calendário, com os confrontos acontecendo logo após Grand Slams ou eventos grandes da ATP não será resolvida. Os Playoffs acontecerão em fevereiro (após Australian Open), os Zonais em abril (após Miami) e setembro (após US Open), enquanto as Finais serão logo após o ATP Finals.

E as mulheres?

Fed Cup não entra no pacote de mudanças
Crédito: Paul Zimmer

Em uma semana na qual a ITF anunciou um grande plano de promover a igualdade de gênero no tênis, a mesma entidade não apresentou nada para a Fed Cup, a Copa do Mundo feminina. A proposta do grupo Kosmos e Gerard Piqué envolveu apenas a Copa Davis e até copia em parte o formato dos zonais na competição feminina.

E se a Copa Davis não tem contado tanto com as principais estrelas do tênis masculino, a Fed Cup sofre deste mal há mais tempo e algumas vezes só conta com as melhores jogadoras da WTA por causa da obrigatoriedade mínima de participação visando os Jogos Olímpicos.

O que pensam os brasileiros

Soares e Melo no confronto com a Argentina em 2015, última participação brasileira no Grupo Mundial
Crédito: Cristiano Andujar

Em 2012 a ITF já havia questionado os países sobre o formato da Copa Davis e a Confederação Brasileira de Tênis respondeu que deveria ser mantido como estava. Na época, o presidente era Jorge Lacerda, antecessor e ‘padrinho político’ do atual presidente Rafael Westrupp.

Westrupp recebeu a visita de David Haggerty na sede da CBT e então passou a defender a mudança no formato. A mudança de postura acaba sendo comum no momento em que o Brasil teve pela primeira vez em alguns anos a recusa de seus principais jogadores de disputar a Copa Davis.

Por motivos diversos, Bruno Soares, Thomaz Bellucci, Rogerio Dutra Silva e João Souza optaram por não jogar a competição em 2018. Bellucci havia ficado fora de apenas dois confrontos até então, ambos devido a lesões e jogou até lesionado contra a Colômbia em 2012 e Alemanha em 2013.

Questionado por este blog sobre a mudança no formato da Copa Davis, Gustavo Kuerten defendeu que a competição mude, mas declarou preferir que fosse disputada a cada 2 anos.

“Eu acho que a Copa Davis precisa mudar. Ela vem perdendo o sabor e o prestígio ao longo dos anos. É difícil saber como manusear, porque o ponto além da Copa Davis ainda é o calendário do tenista, que é inumano. Precisa mudar a Copa Davis e precisam mudar os 5 sets”, afirma Guga.

“Eu faria com um maior intervalo de tempo, de dois em dois anos uma Copa Davis, não sei se de uma maneira direta assim de um local para resolver toda a questão, mas como um produto a gente olha uma Copa do Mundo e visualiza algo que é fantástico”, conclui o tricampeão de Roland Garros, que defendeu o Brasil na Copa Davis 23 confrontos entre 1996 e 2007.

O Brasil, vale lembrar, fez uma de suas piores campanhas na Copa Davis em 2018. Ganhou de forma bastante sofrida contra a República Dominicana e perdeu para a Colômbia pela primeira vez na história no Zonal Americano. Fora do Grupo Mundial, o país deve sair no lucro e pegar uma das vagas das três Américas no qualificatório de fevereiro devido ao ranking.

Mudanças do tênis

Embora esta seja a mudança mais radical da Copa Davis em 118 anos, é preciso lembrar que a competição já teve formatos diferentes até 1980, quando não existia o Grupo Mundial.

Durante um longo período, a Copa Davis era disputada em grupos continentais, com os vencedores de Europa, Américas e Ásia se enfrentando em um Interzonal seguido de uma final.

Os confrontos eram em datas mais próximas e o Brasil esteve no Interzonal duas vezes, perdendo em 1966 para a Índia e em 1971 para a Romênia. Durante o período, o Brasil de Thomaz Koch e Edison Mandarino disputou algumas vezes o Zonal Europeu e não o das Américas.

As ausências e o rumo da Copa Davis

Crédito: Cristiano Andujar

Um confronto da equipe brasileira abre a série de confrontos que acontecem pela Copa Davis até o domingo, com a disputa de vaga na primeira divisão de 2018 e, principalmente, a decisão dos times classificados para a final da competição na temporada atual. E, como já tem sido tão comum na Copa do Mundo do tênis, será um fim de semana marcado por ausências.

Lesões, aposentadoria da competição, falta de preparo físico, falta de vontade ou alguma presepada mesmo, a lista de jogadores que poderiam estar escalados para jogar este fim de semana é grande:


🇩🇪 Alexander Zverev #4, Mischa Zverev #27, Philipp Kohlschreiber #34 e Florian Mayer #69

🇦🇷 Juan Martin Del Potro #24, Leo Mayer #53, Horacio Zeballos #64 e Federico Delbonis #65

🇧🇷 Rogerio Dutra Silva #74 e Thomaz Bellucci #76

🇨🇦 Milos Raonic #11

🇨🇴 Robert Farah #27D

🇭🇷 Ivo Karlovic #49, Borna Coric #56 e Ivan Dodig #13D

🇳🇱 Jean-Julien Rojer #10D

🇯🇵 Kei Nishikori #14

🇨🇿 Tomas Berdych #19

🇷🇺 Andrey Kuznetsov #88 e Evgeny Donskoy #89

🇷🇸 Novak Djokovic #6, Viktor Troicki #47 e Janko Tipsarevic #68

🇨🇭 Roger Federer #2 e Stan Wawrinka #8

Crédito: Corinne Dubreil/ITF

Sim, a ausência de estrelas em (não apenas) playoffs tem sido cada vez mais frequente na Copa Davis, motivo pelo qual a Federação Internacional de Tênis (ITF) planeja mudanças há anos e está prestes a colocar em prática sem ir no principal foco do problema, é claro.

O problema da competição não é a quantidade de sets, ou a final não ser em local neutro. Há dois problemas mais urgentes que são o calendário e a grana.

Primeiro vamos ao calendário: A rodada que começa hoje acontece seguida ao US Open, sendo que na Davis não é tão simples uma equipe chegar e jogar. Tem uma semana de treinos, o piso muda, a bola muda, a altitude muda, a distância é longa dependendo do país que sedia, tem adaptação ao fuso horário.

Mas é só na semana dos Playoffs? Não, a primeira rodada do Grupo Mundial tem sido logo após o Australian Open, as quartas de final e zonais logo após a sequência dos Masters 1000 de Cincinnati e Miami. E se tivesse mais duas semanas de Davis no ano, encaixariam pós Roland Garros e Wimbledon.

Enfim, mas não se fala em trocar o calendário da competição centenária, o que precisaria de uma negociação forte com a ATP.

Crédito: Corinne Dubreil/ITF

E o outro detalhe que a ITF deixa claro é que quer as estrelas jogando, mas por “patriotismo”. A dona da Davis distribui dinheiro de premiação para as federações/confederações nacionais com um valor não divulgado publicamente e definido a portas fechadas em Assembleia Geral e não são todos os países que repassam a verba diretamente aos atletas seja ela inteira ou descontadas despesas, com valor igualitário ou dividido conforme ranking, com regras claras, enfim.

Não basta demonizar as entidades políticas de cada país e achar que elas são as culpadas. A ITF divulga todo ano um comunicado se gabando do alcance mundial da Davis, a quantidade de espectadores, telespectadores, acessos ao site, mídias sociais e acesso ao seu mais novo canal pago que estreia neste fim de semana com os jogos transmitidos ao vivo para todo o planeta.

Os países que sediam um confronto arcam com as despesas e têm espaço limitado para explorar em patrocínios, pois o produto já vem pronto e com marcas pelas quais arrecada a sua grana a ITF. Então é só a ITF? Não, as entidades de cada país aprovam as contas dela e suas decisões. As mudanças estouram para o lado dos atletas por ser mais fácil, eles não estão presentes nas reuniões e são poucos os países que dão participação a eles nas entidades nacionais.

Crédito Takeo Tanuma/ITF

No Brasil causou um certo espanto as ausências primeiro de Rogerio Dutra Silva e depois de Thomaz Bellucci, cada uma com o seu motivo. Mas a equipe brasileira é um ponto fora da curva quando se fala de ausências por parte do jogador, já que o torcedor sabe escalar o time quase fixo com Bellucci, a dupla Melo/Soares e mais um. Eles geralmente estão presentes até mesmo em zonais, o que não é nem de longe a coisa mais comum numa Copa Davis, só que no nosso caso a quantidade de atletas que temos com nível e experiência neste tipo de competição é o que causa o prejuízo.