Filho de herói argentino na Copa-86 tenta repetir sucesso no tênis

Roman Burruchaga, de 16 anos, é filho do ex-jogador de futebol argentino Jorge Burruchaga, autor do gol que deu o título mundial de futebol ao país na Copa do Mundo de 1986. Tenista, o garoto tenta repetir o sucesso do pai, mas em outro esporte

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O relógio marcava 39 do segundo tempo, a Argentina de Maradona havia cedido o empate depois de abrir 2 a 0 sobre a Alemanha no estádio Azteca, até que El Pibe encontra espaço e lança na ponta direita para Jorge Burruchaga, que arranca e chuta para o gol do bicampeonato mundial.

Jorge Burruchaga chuta na saída do goleiro Harald Schumacher para marcar o gol do título da Argentina na final da Copa do Mundo de 1986, no estádio Azteca, no México
Burruchaga toca na saída de Schumacher para garantir o título mundial da ArgentinaCrédito: FIFA

O futebol argentino não ganhou nenhuma Copa depois de 1986 e hoje o nome Burruchaga, ainda presente no futebol argentino com a gerência técnica da seleção argentina de futebol na AFA (Associação Argentina de Futebol), também começa a ser comum no tênis.

Roman deixou a base do River Plate para se dedicar exclusivamente ao tênisCrédito: AAT

Aos 16 anos, Roman Andrés Burruchaga, filho do campeão mundial de futebol, é um dos novos nomes do tênis argentino e disputa nesta semana a versão juvenil da Copa Davis em Budapeste, na Hungria. Ele é o atual 253º do ranking mundial até 18 anos, melhor do país entre nascidos desde 2002.

Esta é a segunda vez que o garoto representa a Argentina em um Mundial. A primeira foi há 2 anos, em Prostejov, na República Tcheca, quando ajudou seu país a conquistar o título sub-14 por equipes – competição já vencida por nomes como Rafael Nadal, Jo-Wilfried Tsonga e David Nalbandian.

O tênis surgiu na vida de Roman em uma mesa e foi justamente por causa do pai, que comprou o material de tênis de mesa para a família. O garoto foi tomando gosto, Jorge então percebeu que ele levava jeito e o presenteou com uma raquete de tênis para levá-lo à quadra o esporte que consagrou Guillermo Vilas e Juan Martín Del Potro, entre tantos outros argentinos.

No início, ele se dividia entre o tênis e o futebol nas categorias de base do River Plate. Para evitar problemas de conciliação com a escola, precisou optar por uma modalidade e preteriu a de seu pai.

“Eu quero ser profissional, esse é o meu sonho. Já fui campeão mundial igual ao meu velho, mas não tem comparação. O meu foi um título junior e o dele foi profissional”, afirma Roman ao site argentino Pagina 12, para o qual também revelou que se emociona quando assiste no Youtube ao gol marcado por seu pai na final da Copa do Mundo de 1986.

Roman se emociona quando assiste pelo Youtube o gol marcado por seu pai em 1986Crédito: Srdjan Stevanovic/ITF

O garoto disputou em 2018 seu primeiro torneio profissional, um torneio future na cidade de Córdoba, onde perdeu na primeira rodada de duplas e parou no qualifying em simples. Neste ano foi um dos sparrings da equipe principal da Argentina que derrotou a Colômbia na Copa Davis, auxiliando tenistas como Diego Schwartzman na preparação para os jogos.

“Muitos me falam do sobrenome. No entanto, eu jogo tênis, não tem nada a ver com o mundo esportivo dele. Não acredito que influencie. Para meu irmão é mais difícil porque ele joga futebol”

Roman Burruchaga, ao jornal argentino Los Andes, citando o irmão Mauro, que atua no Chievo Verona pelo futebol italiano.

Uma curiosidade em relação ao futebol se dá ainda pelo que teria motivado a escolha do nome do jovem tenista, cujo pai se tornou ídolo no Independiente, clube pelo qual venceu a Copa Libertadores em 1984. “Muitos me dizem que é por causa do Riquelme (ídolo do Boca Juniors). Nunca perguntei ao meu pai, mas eu torço para o River”.

Argentina de Roman Burruchaga disputa a Copa Davis Junior em Budapeste, na HungriaCrédito: Srdjan Stevanovic/ITF

Tênis aprova proposta de Piqué e muda a Copa Davis após 118 anos

ITF aprovou reforma apresentada pelo jogador de futebol Gerard Piqué e a Copa Davis terá sua maior mudança

Copa Davis a céu aberto, no saibro, com torcida da casa e jogos em melhor de 5 sets acaba em 2018
Crédito: Cristiano Andujar

A Assembleia Geral da Federação Internacional de Tênis (ITF) aprovou nesta quinta-feira, em Orlando, nos Estados Unidos, uma reforma histórica na Copa Davis, um dos eventos mais tradicionais do esporte mundial, que muda completamente o seu formato após 118 anos com uma proposta prometendo $ 3 bilhões em 25 anos para investimentos na base do esporte.

Campeão em 2017, Pouille prometeu boicote. Crédito: Corinne Dubreil

Com o nome “Copa do Mundo do Tênis” adotado nos últimos anos pela entidade internacional, a competição agora terá um formato de Mundial. Em um modelo apresentado por Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona e marido da cantora pop Shakira, e contestado por ex-tenistas como Lleyton Hewitt e jogadores em atividade como o francês Lucas Pouille (que prometeu boicotar a competição), o americano David Haggerty consegue sua maior vitória à frente da ITF depois e viajar pelo mundo em campanha prometendo ajuda aos países votantes.

Ao todo foram 71,4% os votos de aprovação, incluíndo países como Azerbaijão, Botsuana, Gana, Santa Lucia e Togo, entre outros que nem participaram da Copa Davis nos últimos anos. Outro caso controverso foi a participação do francês Bernard Giudicelli no processo enquanto o mesmo responde criminalmente por difamação.

Presente do Grupo Mundial apenas duas vezes nos últimos 15 anos, o Brasil votou favorável à reforma em bloco com os demais países sul-americanos.

O novo formato será o seguinte:

Os 4 semifinalistas de 2018 (🇫🇷 🇪🇸 🇭🇷 🇺🇸) já estão garantidos no Grupo Mundial que acontece entre 18 e 24 de novembro de 2019 em sede a ser definida entre Lille (França) e Madri (Espanha).

Os próximos 24 melhores colocados no ranking da Copa Davis jogarão uma repescagem em fevereiro na qual os 12 vencedores se juntam aos já classificados. Além disso, haverá 2 wild cards (convites) para formar os 18 que competem pelo título.

Os 18 países serão divididos em 6 grupos com 3 equipes cada. Os confrontos da fase de grupos acontecem entre segunda e quinta-feira, com quatro confrontos por dia (2 jogos de simples e 1 de duplas, todos em melhor de três sets).

O vencedor de cada grupo e os dois melhores segundos colocados (definidos por + confrontos, + sets e + games vencidos – nesta ordem) avançam para as quartas de final, seguidas da semifinal e a final. Tudo no mesmo local, com apenas três jogos e em melhor de três sets.

Na sexta-feira acontecem os quatro confrontos de quartas de final, com as semifinais no sábado e a final no domingo.

Os dois piores times serão rebaixados para o Zonal I de 2020, enquanto os outros 12 times jogarão o Playoff com os vencedores dos zonais (6 Europa/África, 3 Ásia/Oceania e 3 Américas) de 2019 em fevereiro de 2020.

A nova Copa Davis não se difere muito dos Mundiais juvenis de 14 e 16 anos que são realizados pela mesma ITF, exceto pelos dois convites políticos que deixam a competição com 18 times em vez dos 16 das categorias de base.

E quem perder aquele confronto de fevereiro? Esses vão para os zonais, que seguirão sendo disputados no mesmo formato de hoje, ao longo do ano, com os vencedores se classificando para este grande Playoff de fevereiro.

O que não foi explicado

Suíça com Federer e Wawrinka foi campeã em 2014. Crédito: Paul Zimmer

Entre os países que votaram contra uma das principais críticas foi a falta de respostas para algumas questões, além do período de disputa da nova Copa Davis, que será logo após o ATP Finals, competição que já costuma perder jogadores em um extenuante final de temporada.

A grande justificativa da ITF para mudar a competição é a ausência dos principais tenistas, o que nada garante que mudará com o novo formato, exceto pelo forte aporte financeiro trazido pelo grupo Kosmos.

O período também inviabiliza que se jogue em pisos diversos e em quadras descobertas, uma vez que Europa e Estados Unidos são os principais candidatos a receber a competição. E qualquer chuva quebraria toda a programação com tantos jogos previstos diariamente.

E os playoffs que acontecem em setembro com ingressos sendo vendidos? Os vencedores serão apenas cabeças de chave e precisarão vencer seus confrontos em fevereiro para participar da Copa Davis em novembro, podendo até repetir um confronto de setembro já que os demais classificados serão definidos por ranking.

Outro ponto crítico da Copa Davis nos últimos anos, que é a questão do calendário, com os confrontos acontecendo logo após Grand Slams ou eventos grandes da ATP não será resolvida. Os Playoffs acontecerão em fevereiro (após Australian Open), os Zonais em abril (após Miami) e setembro (após US Open), enquanto as Finais serão logo após o ATP Finals.

E as mulheres?

Fed Cup não entra no pacote de mudanças
Crédito: Paul Zimmer

Em uma semana na qual a ITF anunciou um grande plano de promover a igualdade de gênero no tênis, a mesma entidade não apresentou nada para a Fed Cup, a Copa do Mundo feminina. A proposta do grupo Kosmos e Gerard Piqué envolveu apenas a Copa Davis e até copia em parte o formato dos zonais na competição feminina.

E se a Copa Davis não tem contado tanto com as principais estrelas do tênis masculino, a Fed Cup sofre deste mal há mais tempo e algumas vezes só conta com as melhores jogadoras da WTA por causa da obrigatoriedade mínima de participação visando os Jogos Olímpicos.

O que pensam os brasileiros

Soares e Melo no confronto com a Argentina em 2015, última participação brasileira no Grupo Mundial
Crédito: Cristiano Andujar

Em 2012 a ITF já havia questionado os países sobre o formato da Copa Davis e a Confederação Brasileira de Tênis respondeu que deveria ser mantido como estava. Na época, o presidente era Jorge Lacerda, antecessor e ‘padrinho político’ do atual presidente Rafael Westrupp.

Westrupp recebeu a visita de David Haggerty na sede da CBT e então passou a defender a mudança no formato. A mudança de postura acaba sendo comum no momento em que o Brasil teve pela primeira vez em alguns anos a recusa de seus principais jogadores de disputar a Copa Davis.

Por motivos diversos, Bruno Soares, Thomaz Bellucci, Rogerio Dutra Silva e João Souza optaram por não jogar a competição em 2018. Bellucci havia ficado fora de apenas dois confrontos até então, ambos devido a lesões e jogou até lesionado contra a Colômbia em 2012 e Alemanha em 2013.

Questionado por este blog sobre a mudança no formato da Copa Davis, Gustavo Kuerten defendeu que a competição mude, mas declarou preferir que fosse disputada a cada 2 anos.

“Eu acho que a Copa Davis precisa mudar. Ela vem perdendo o sabor e o prestígio ao longo dos anos. É difícil saber como manusear, porque o ponto além da Copa Davis ainda é o calendário do tenista, que é inumano. Precisa mudar a Copa Davis e precisam mudar os 5 sets”, afirma Guga.

“Eu faria com um maior intervalo de tempo, de dois em dois anos uma Copa Davis, não sei se de uma maneira direta assim de um local para resolver toda a questão, mas como um produto a gente olha uma Copa do Mundo e visualiza algo que é fantástico”, conclui o tricampeão de Roland Garros, que defendeu o Brasil na Copa Davis 23 confrontos entre 1996 e 2007.

O Brasil, vale lembrar, fez uma de suas piores campanhas na Copa Davis em 2018. Ganhou de forma bastante sofrida contra a República Dominicana e perdeu para a Colômbia pela primeira vez na história no Zonal Americano. Fora do Grupo Mundial, o país deve sair no lucro e pegar uma das vagas das três Américas no qualificatório de fevereiro devido ao ranking.

Mudanças do tênis

Embora esta seja a mudança mais radical da Copa Davis em 118 anos, é preciso lembrar que a competição já teve formatos diferentes até 1980, quando não existia o Grupo Mundial.

Durante um longo período, a Copa Davis era disputada em grupos continentais, com os vencedores de Europa, Américas e Ásia se enfrentando em um Interzonal seguido de uma final.

Os confrontos eram em datas mais próximas e o Brasil esteve no Interzonal duas vezes, perdendo em 1966 para a Índia e em 1971 para a Romênia. Durante o período, o Brasil de Thomaz Koch e Edison Mandarino disputou algumas vezes o Zonal Europeu e não o das Américas.