Obrigado, Maria Esther Bueno!

Maria Esther Bueno campeã em Wimbledon

O tênis brasileiro existia, mas era pouquíssimo relevante antes do surgimento de Maria Esther Bueno. Ela foi desbravadora no esporte, aprendeu a jogar pelo talento próprio de observação e criou um estilo próprio, marcante e vencedor para viajar sozinha pela Europa e conquistar aos 19 anos seu primeiro título de simples em Wimbledon, um ano depois de ter conquistado as duplas no mesmo local.

A soma de conquistas de Maria Esther fala por tudo. Nenhum outro tenista brasileiro ou sul-americano conquistou algo próximo dela. Em Nova York ou Londres, todos o tratavam de forma muito respeitosa e reconheciam a sua importância. Vi Roger Federer, o ídolo de tantos, falar com ela como um fã, com um respeito tremendo pela história da maior tenista brasileira de todos os tempos e provável top 5 do país entre atletas de todas as modalidades (dispenso fazer lista porque esportes são diferentes, épocas são diferentes, pessoas são diferentes e pensam diferente).

Maria Esther em clínica para deficientes no Rio Open. Crédito: Fotojump

Mas no Brasil que conquistou seus primeiros títulos mundiais de futebol em 1958 e 1962, esqueceu-se de outros esportes e atletas vitoriosos que por aqui nasceram sabe-se lá o motivo. E Maria Esther foi uma das atletas que por muitos anos ficaram de lado, abaixo de muita gente que não conquistou metade. Uma mulher vencedora em um país machista, uma mulher que não era “da elite” em um esporte que aqui sempre foi tratado como “de elite” não por excelência, mas por pouca acessibilidade.

Em um período em que as mulheres ainda tinham tão pouca voz, Maria Esther falava com a classe de suas raquetadas, seu voleio e suas vitórias. Ao todo foram 19 títulos de Grand Slam, sendo 7 deles em simples, mais que o dobro de qualquer outro tenista brasileiro. Nas duplas, ela fechou em 1960 o Grand Slam, algo que apenas outras três jogadoras no mundo e na história conseguiram.

Ela plantou a semente que poucos brasileiros conseguiram colher anos depois. Lembremos que até os dias atuais, o Brasil soma 30 títulos de Grand Slam em chaves principais (adultas). E praticamente dois terços foram conquistados por Maria Esther Bueno. Os demais foram apenas por homens: Bruno Soares (5), Gustavo Kuerten (3), Marcelo Melo (2) e Thomaz Koch (1).

Maria Esther Bueno com Roger Federer em São Paulo. Crédito: DGW

Um título não desvaloriza outro, um ídolo não apaga o brilho de outro. Mas aqui no Brasil acontece algumas vezes, em especial por quem não deveria – leia-se dirigentes e os torcedores mais novos -, de tratar de especificar que Maria Esther foi grande “no feminino”, quando sim, ela é mulher e ganhou mais que todos os homens brasileiros juntos no tênis em títulos de Grand Slam, numa época em que não tinha premiação milionária, as viagens eram difíceis, não tinha patrocinador estatal despejando dinheiro no esporte, nem Bolsa Atleta.

Maria Esther competiu em uma época em que o tênis não era olímpico, não teve a oportunidade de conquistar uma medalha em Jogos Olímpicos como teve nos Jogos Pan-Americanos de São Paulo-1963, quando ganhou três (uma de ouro em simples e duas de prata nas duplas e duplas mistas).

Como jornalista, tive a oportunidade de conhecer Maria Esther Bueno em 2008. Foi a primeira vez que pedi uma entrevista e ela negou. Tive mais uma tentativa frustrada algum tempo depois. Quando trabalhei como assessor de imprensa, me frustrei pela falta de qualquer homenagem a ela no primeiro WTA de Florianópolis, pude conversar com ela na vinda de Roger Federer ao Brasil, quando presenciei um encontro entre ela, Federer e Guga Kuerten (sim, sou um privilegiado) em um lounge e na quadra montada do Ginásio do Ibirapuera. Depois, trabalhando para o Brasil Open, fui levar material para ela e Eusébio Resende na cabine do Sportv e fui muito bem tratado pela Maria Esther, com direito a elogio que poderei contar aos netos.

Anúncio da Quadra Maria Esther Bueno. Crédito: Cristiano Andujar

Também presenciei o que considero uma parte feliz à época e triste hoje. Eu trabalhei no evento-teste dos Jogos Olímpicos do Rio no Centro Olímpico que teve a quadra central batizada de Maria Esther Bueno, com a presença dela batendo bola. O Guga também estava lá. Vários dirigentes e políticos estavam lá posando para foto com os dois. Pois hoje a homenagem que deram está lá sem nenhum evento de tênis desde encerrados os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

Se querem homenagear Maria Esther Bueno sem nenhuma demagogia, que as autoridades se acertem e tornem aquele local como um grande centro nacional de tênis com torneio, eventos e um museu dela.

Que bom que o Rio Open tratou de homenageá-la nesses cinco anos de torneios, e que o Sportv a manteve como comentarista para que o público mais jovem saiba quem foi este fenômeno do esporte brasileiro. E que bom podermos ver em sua homenagem textos como o de José Nilton Dalcim e de Alexandre Cossenza, neste belo material do UOL.

Desejo que a nossa rainha do tênis possa descansar em paz e que não se diminua jamais os feitos alcançados por ela. Obrigado por tudo e nos desculpe por tudo, Maria Esther Bueno!

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Autor: rubenslisboa

Jornalista. Ex-repórter de Lance!, UOL Esporte, e Confederação Brasileira de Tênis. Músico (não-praticante) nas horas vagas. Fã de várias vertentes de música, especialmente Rock e Heavy Metal. Um colecionador de covers, tributos, versões alteradas e plágios descarados no mundo da música.

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