Roland Garros e a realidade do tênis feminino na América do Sul

Veronica Cepede Royg

Desde o início da Era Aberta do tênis, Roland Garros sempre teve jogadoras sul-americanas na chave feminina de simples, é o Grand Slam do saibro, o piso onde são formados os tenistas sul-americanos em geral e da maior parte dos torneios juvenis e profissionais realizados no continente. Mas desde o início da década atual, o número de tenistas caiu significativamente e em 2017 tivemos apenas três representantes da América do Sul na chave principal em Paris.

Bia jogou a chave principal em Paris
Crédito: Corinne Dubreuil/FFT

Beatriz Haddad Maia precisou passar pelo qualifying para chegar à chave e jogar pela primeira vez um Grand Slam como profissional. Além dela, a colombiana Mariana Duque Marino e a paraguaia Veronica Cepede Royg conseguiram a entrada no torneio.

Cepede Royg e Duque Marino foram longe para a expectativa em relação às sul-americanas no torneio e duelam por uma vaga na quarta rodada, que terá uma jogadora do continente pela primeira vez desde 2011, quando a argentina Gisela Dulko chegou às oitavas.

Além das três tenistas já citadas, estiveram em Paris a argentina Nadia Podoroska e a paraguaia Montserrat Gonzalez, que perderam no quali.

Em 1968, eram 10 tenistas da América do Sul jogando em Roland Garros, número que variou bastante nos anos seguintes, mas nunca havia ficado oito edições seguidas com menos de quatro jogadoras na chave principal, o que mostra a realidade do tênis feminino no continente.

Na Fed Cup deste ano não teve nenhum país da América do Sul nem mesmo nos Playoffs do Grupo Mundial II, nem no Grupo Mundial I ou II. Desde 2009, época da Argentina de Dulko, a elite da competição feminina por equipes não tem um país sul-americano.

No ranking da WTA anterior a Roland Garros, a única sul-americana presente no top 100 é a paraguaia Cepede Royg, com Bia Haddad bem perto das cem melhores, o que deve voltar a acontecer depois do Grand Slam. Mas além das duas citadas, e de Duque Marino, que está próxima do top 100, há um abismo.

Andrea Gamiz, uma das poucas venezuelanas
Crédito: Cristiano Andujar

Peru e Uruguai, que já tiveram jogadoras na chave de Roland Garros, hoje não têm tenistas ranqueadas na WTA. A Bolívia tem somente Noelia Zeballos, que ocupa a 799ª colocação. Equador e Venezuela têm duas tenistas cada no ranking, sendo que a melhor venezuelana, Andrea Gamiz, é 354ª, e a melhor equatoriana, Charlotte Roemer, é apenas 819ª. O Chile soma seis jogadoras, apenas Daniela Seguel entre as 300 melhores, na 234ª posição.

Embora tenha hoje uma tenista entre as 100 e outra entre as 200, caso de Montserrat Gonzalez, o que já é superior ao momento do Brasil, o Paraguai tem apenas mais duas ranqueadas. A Colômbia tem apenas Duque Marino entre as 500, depois tem mais seis jovens tenistas no ranking, longe de posições de destaque.

Se a América do Sul sempre teve uma jogadora na chave principal de Roland Garros, a Argentina é o país responsável por isso na maioria das edições. O problema é que já chegamos ao terceiro ano sem uma argentina na chave em Roland Garros. Atualmente há 15 jogadoras da Argentina no ranking da WTA, com apenas Nadia Podoroska entre as 300 melhores. O que se pode esperar de melhora para o país vizinho é a idade das jogadoras que somam pontos no circuito profissional.

Paula Ormaechea foi a última argentina na chave de Roland Garros, em 2014
Crédito: Cristiano Andujar

Por fim, como vai o Brasil? Hoje Bia Haddad Maia começa a se firmar aos 20 anos e recuperada das lesões que adiaram sua chegada ao circuito de elite. Teliana Pereira teve seu grande momento recentemente ao recolocar o país no top 100, de Grand Slam e títulos de WTA, mas não está em um bom momento na carreira em 2017, assim como Paula Gonçalves, Gabriela Cé e Laura Pigossi, que tiveram bons resultados em anos recentes nos torneios WTA, mas não mantiveram.

O problema é que a média de idade das brasileiras no ranking não é baixa, o país teve uma geração que conseguiu feitos importantes (com as jogadoras citadas acima), mas tal qual toda a América do Sul, não teve auto-crítica, não fez trabalho diferenciado visando o desenvolvimento do tênis feminino.

Teliana Pereira campeã em Florianópolis 2015
Crédito: Cristiano Andujar

O Brasil teve dois torneios WTA, que ajudaram enquanto existiam e agora exibem o abismo. Teliana ganhou um deles? Ganhou. Mas o momento da Teliana já era bom mesmo antes dos torneios no Brasil, ela já vinha em uma crescente jogando fora do país. Óbvio que em casa ajuda, ela ganhou em Floripa quando jogou no saibro e foi bem na primeira edição do Rio. Mas Bia, que jogou em boas condições físicas apenas dois dos torneios realizados, acaba de chegar ao seu auge sem haver nenhum deles para jogar.

Paula Gonçalves teve problemas ao arriscar no calendário de 2017
Crédito: Cristiano Andujar

O Brasil teve dois torneios WTA, mas o calendário profissional feminino não teve uma progressão com torneios acima dos ITF 10k e 25k. Não teve torneios de 50k, 75k ou 100k. São caros? Sim, mas um WTA também é. E falar em torneios caros pensando o quanto se usou de Lei de Incentivo ao Esporte nos últimos anos para Challengers, Futures com áreas VIP injustificáveis e torneios de veteranos soa um pouco como fugir da realidade.

As jogadoras tinham de pular de um Future para um WTA. Se quisessem evoluir, que viajassem. Óbvio que é importante viajar para evoluir, mas a resposta no tênis masculino geralmente não vai pelo mesmo caminho. Os Challengers existiram em todos os níveis até o ano passado. O apoio a jogadoras nunca passou de quatro ou cinco no feminino, bem diferente do masculino. A política feita aqui para o feminino só ajudou a reduzir o número de jogadoras.

Quando você tem um grande evento (seja ele um ídolo que estoura ou um torneio grande que vem ao país), você espera que o número de jogadores cresça. Só que o tênis feminino brasileiro tinha mais de 30 ranqueadas entre 2011 e 2013, hoje são 16, um ano apenas depois do fim do WTA de Florianópolis e do torneio feminino no Rio Open. Que evolução é esta?

Estreante na Fed Cup 2017, Luisa Stefani joga o circuito universitário nos EUA
Crédito: ITF

Na Fed Cup deste ano, ficou claro o problema com a falta de Paula Gonçalves e Bia Haddad Maia, quando o país jogou para não ser rebaixado ao Zonal Americano II. As duas mais experientes, Teliana e Gabriela não vinham em boa fase, Luisa Stefani e Carolina Alves vinham a primeira do circuito universitário americano e a segunda de torneios future. E o país teria poucas opções se nenhuma das quatro pudesse jogar no México. Em 2014 foi o único ano na década que o Brasil se classificou para os Playoffs do Grupo Mundial. E a capitã Carla Tiene foi dispensada do cargo no ano seguinte depois de ter ficado com o vice-campeonato do Zonal em 2015.

É só o Brasil? Claro, que não! Por isso você leu lá no começo um comparativo de toda a América do Sul, pois o problema está em todo o continente. Você já deve ter ouvido e lido bastante que o tênis feminino está na Europa. Mas a realidade é que isso acontece pelo fato de o tênis sul-americano não evoluir. Alguma coisa está errado por nossos lados, seja na escolinha, no acompanhamento no juvenil, na formação de técnicos voltados ao tênis feminino e na formação de calendários e organização de torneios.

Você também já deve ter ouvido que o problema é cultural numa forma de transferirem o problema às jogadoras, que são as últimas a serem culpadas, pois o problema está sim na cultura, mas na cultura de organização, na cultura em que a auto-crítica é proibida e “estamos sempre em um grande momento”, mesmo que a história e o trabalho em outros continentes mostrem que estamos errados.

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Autor: rubenslisboa

Jornalista. Ex-repórter de Lance!, UOL Esporte, e Confederação Brasileira de Tênis. Músico (não-praticante) nas horas vagas. Fã de várias vertentes de música, especialmente Rock e Heavy Metal. Um colecionador de covers, tributos, versões alteradas e plágios descarados no mundo da música.

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